23/02/2024

O carro elétrico e as locadoras de automóveis no Brasil



Tenho acompanhado intensos debates a respeito da recente decisão da Hertz de desmobilizar parte de sua frota, especialmente a redução em 20 mil carros elétricos. Este é um tema recorrente nas discussões entre profissionais do setor de locação e muitos me questionam sobre o futuro desse mercado e a viabilidade dos veículos elétricos nas locadoras. 

Antes de responder essa pergunta, é essencial fazer uma análise do assunto. Os elétricos representam uma tecnologia relativamente nova, destinada a evoluir. Na comparação com veículos a combustão, que frequentemente apresentam novidades em termos de potência do motor, os elétricos ainda estão em um estágio inicial. 

Para a maioria, esse é um território ainda desconhecido – e recomendo que se aprofundem no assunto eletrificação de frotas, explorando tanto os aspectos positivos quanto os desafios associados a essa tecnologia. 

Também é importante ressaltar que experimentar na prática um veículo elétrico é fundamental. Não se trata apenas de dar uma ou duas voltas, mas sim de ter experiências prolongadas, de semanas ou até meses, para compreender de fato aspectos como carregamento, pontos de recarga, peculiaridades do uso diário, nuances da condução, tempo de duração da bateria e, especialmente, frenagens e acelerações. 

Ao se acostumar com um veículo elétrico, aprende-se a otimizar a carga da bateria (por meio do próprio veículo e da condução eficiente). E a experiência de dirigir traz benefícios como a ausência de ruídos, arranque potente e suavidade devido à tecnologia embarcada.

Quanto à presença de carros elétricos nas locadoras, observo que, tanto no Brasil quanto no mundo, eles têm funcionado principalmente em contratos de locação de longo prazo, nos quais os usuários possuem seus próprios pontos de recarga. 

No entanto, na locação diária, os desafios aumentam. Há locatários que buscam tais veículos para experiências curtas, sem compreender completamente os métodos ideais de recarga e dependendo, por vezes, de pontos públicos nem sempre eficientes. Outro equívoco comum é “abusar” do veículo elétrico, razão pela qual tem se verificado uma elevada incidência de sinistros que acarretam mais custos de reparo (conforme mencionados pela Hertz).

A discussão central reside na disparidade de preços iniciais entre os veículos elétricos e os carros a combustão. Embora a adoção de elétricos esteja crescendo, a expansão foi mais expressiva nos países com incentivos governamentais para aquisição, criando, por vezes, dificuldades na revenda e desvalorização elevada exatamente devido ao incentivo inicial. Esse cenário é exacerbado pelo desconhecimento do usuário, impactando a oferta e procura.

É crucial abordar a entrega técnica e a instrução ao locatário sobre o veículo elétrico, pontos esses já discutidos em eventos do setor em Las Vegas (EUA). A eficácia dessa alternativa para locadoras dependerá da administração cuidadosa dos veículos e da tarifação adequada, considerando a aquisição, manutenção e a eventual venda.

Recomenda-se, portanto, que antes de incluir elétricos na frota, os gestores os utilizem pessoalmente por um período, compreendendo plenamente suas funcionalidades e avaliando se atendem às necessidades dos clientes. A decisão de incorporar veículos elétricos deve ser baseada em uma análise racional, considerando cuidadosamente os custos associados a essa tecnologia inovadora.

*Paulo Miguel Júnior é vice-presidente da ABLA (Gestão 2024 a 2026)